SEM CIDADANIA

Comentar, analisar os fatos da vida, opinar quanto à validade desses fatos na existência das pessoas, mensurar os efeitos benéficos e danosos dos mesmos sobre a sociedade, adotando, sempre que possível e oportuno, uma atitude positiva frente a essas questões, colocar-se à disposição dos semelhantes para um possível ato de solidariedade – eis uma tarefa, ou melhor, tarefas dignas de alguém merecedor do título de cidadão.
Um cidadão, nos dias de hoje, anda a nos fazer falta: é grande a enxurrada de informações e desinformações a partir dos meios de comunicação; essa carga diária de “novidades” vem, no mais das vezes, deformada pela prenhez indevida de preceitos que, ditos adequados à vida em sociedade são, na realidade, falsos axiomas. É comum ouvirmos frases como: “o cidadão tem que reivindicar os seus direitos”. Rara é esta: “devemos todos cumprir com os nossos deveres”. É isto: direitos e deveres formam hoje praticamente uma dicotomia na cabeça da moçada quando, ao contrário, são, ou pelo menos deviam ser encarados como um binômio.
Lembro essa dicotomia, em face da injustificada revolta de filhos contra pais, contra quem os ama e os criou com sacrifício, para bajularem os marginais que mandam no submundo do crime (organizado ou não). Não aceitos como verdadeiros homens pela gangue a que querem servir, sentindo-se tratados como jovens tolos pelos que os desprezam e exploram, voltam-se contra os que sempre os aceitaram e deles cuidaram desde a nascença. Isso é muito mais do que ingratidão: é cretinice.
A liberdade que se diz hoje conferir aos jovens é uma verdadeira arapuca, que os deterá mais cedo ou mais tarde nas teias da quase impossibilidade da convivência salutar com os demais, num ambiente de verdadeira, possível harmonia.

Não passa pela cabeça desses “revolucionários” a mínima ideia do que seja a cidadania (diretos e deveres). Na universidade de hoje não aprendem isso. No ambiente universitário de hoje (salvo raras exceções que confirmam a regra) assiste-se a uma verdadeira dissolução dos valores fundamentais, básicos, de coexistência humana fundada no equilíbrio possível. E jogam fora o que em casa aprenderam (ou deviam ter aprendido) com os seus pais. O tempora, o mores!


LM
Publicado no O Povo em 31/01/17