DOS CARNAVAIS SAUDOSOS II


Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon, cadê seus blocos famosos?... A memória dos meus primeiros carnavais chega-me com as melodias dos frevos-de-bloco de Nelson Ferreira, Luiz Bandeira, Capiba e outros carnavalescos do Recife de antanho. Era ainda em Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, onde a influência da cultura pernambucana era bem maior do que hoje. Ouso dizer que até que os acentos eram mais próximos: a casa de João, o cavalo de papai, as vacas dede Joaquim...

O frevo gozava, no início da segunda metade do século XX, de imenso prestígio em todo o País, particularmente no Nordeste. Um prestígio à altura do seu merecimento: músicas cujas harmonias penetram fundo, ritmos entranháveis, difíceis de ser banidos da nossa lembrança. Mesmo a atual geração (refiro-me aos jovens que têm hoje entre 21 e 30 anos) ouve o frevo de forma entusiástica.

Em 1972 fui morar no Recife e lá pude conhecer de perto a forte tradição do frevo (e as belas noitadas na praia do Janga, em Olinda, com a suas cirandas). O Recife apresentava aquela atmosfera singular em sua feição arquitetônica, com seus bairros arborizados, seus casarões vetustos, habitados por gente que, no período do carnaval, era tomada por uma irresistível magia foliã, da forma tanto mais natural quanto obrigatória, se fora isso possível. Os barzinhos do centro do Recife (e de Olinda) eram recintos quase sagrados para os brincantes de todas as idades. Eles nutriam uma reverência profunda por aqueles frevos-de-bloco! Lembro o “Frevo nº 2 do Recife”, de Antônio Maria, que alude aos maracatus retardados, chegando à cidade cansados, com seus estandartes pro ar...Poesia! Ilusão, desilusão, novamente ilusão! Mas, reparem: ilusão, aqui, ganha um significado mais elevado, não apenas um engano, mas quase o contrário: o encontro com o sonho que vale a pensa ser sonhado.

Gosto de todos os outros ritmos de carnaval: a marchinha... algumas delas insuperáveis! O samba, dentre eles, alguns de Noel e de Lamartine Babo, sei não! A marcha-rancho, com letras tão líricas, a que Vinícius de Moraes dedicou a sua pena! Mas é no frevo-canção que encontro ainda a alma ancestral do verdadeiro e imortal carnaval de rua. Não é raro encontrarmos no Recife Antigo, blocos ostentando estandartes com o ano de sua aparição por volta de uma centúria. Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apois-fum, dos carnavais saudosos.

LM
Publicado no O Povo em 7 de março de 2017