DIÁLOGO: POSSÍVEL?


As últimas décadas da história brasileira revelam uma progressiva corrosão de valores morais, estéticos, políticos, culturais, enfim. Acentuou-se e se aprofundou o fosso entre a realidade e as mais variadas e delirantes convicções, tanto acerca de política, quanto de qualquer outro tema de interesse público. Tudo isso fruto de um esgarçamento dos próprios objetos de estudo. Os brasileiros não se veem em sua literatura, hoje.

Se dermos uma olhada, por curiosidade intelectual e histórica, no cenário literário brasileiro de quatro décadas atrás, verificamos, pasmos, o quanto deteriorou-se este cenário! Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Lima Barreto, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz e tantos outros na prosa; Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, na poesia, são nomes que bastam para detectar-se a visível e deplorável diferença de estatura literária entre eles os que hoje são considerados nomes respeitáveis da cultura nacional. Se recuarmos mais ainda (Machado de Assis, Euclides da Cunha...), ainda mais sentiremos o tamanho da perda. O que houve com a cultura brasileira? Que valores produz hoje a nossa Universidade?

Essas observações poderão parecer saudosismo. Pois eu digo: ah, se fosse apenas saudosismo! Mais do que isso, é a constatação de uma empobrecedora fragmentação cultural em nome sabe-se lá de quê! Pluralidade de ideias é algo bastante diverso de fragmentação cognitiva, eis a questão.

Assistimos hoje a uma improdutiva discussão entre contendores armados de convicções emperradas, cuja validade o tempo já tratou de desmentir. No entanto, corifeus tardios e empedernidos de engrenagens ideológicas enferrujadas dispõem-se à sua defesa e – não bastasse – demonizam os que a isso se opõem, nominando-os com todos os qualificativos que denigrem a pessoa humana. Atualmente, no Brasil, não há uma ideia clara, nem sequer do que seja verdadeiramente o nosso país em sua cultura, sua história e seu difícil crescimento como povo.

Vemos, não uma pluralidade cultural, o que seria de todo salutar, mas uma fragmentação empobrecedora de conceitos. Ao tentar-se estabelecer um complicado diálogo (impossível, melhor dito), jorram os xingamentos e a  incapacidade de ouvir. Os rótulos ideológicos cegam os incautos, enquanto os seus “líderes” se refestelam em cima disso tudo. Diálogo: possível?

LM
Publicado no O Povo em 18 de abril de 2017