PACTO




 Vai, poesia,
até os ermos da minha pobre terra...
Dá um abraço de orvalho às madrugadas
poentas do sertão... Dá-lhes alento.
Vai, calmamente pede aos passarinhos
que emudeçam ao menos um momento.
Não mereço a alegria dos seus cantos.
Adentra a noite e o sono dos meus pais
e pede-lhes, por Deus, ainda uma bênção.
Beija as suas frontes cheias de saudade.
Diz-lhes que eu aprendi mal a lição
copiada no meu caderno Avante!
e até as pedras choram meu destino.
À minha doce mãe, que me perdoe
pelas vezes que a fiz chorar. Por lágrimas
derramadas por seu poeta-menino.
E diz ao meu irmão que não sou puro
como ele sempre quis acreditar.
Que o castigo e o remorso têm morada
em meu desconsolado coração.
Que a saudade me acorda e me golpeia
em meus sonhos de exílios e distâncias.
Diz às minhas pretéritas amantes
que a elas, na verdade, eu nunca amei.
Que só lhes presenteei de despedidas
e que as traí por nada, o inconstante.
Vai, poesia.
À minha dor não tens que regressar.
Nossa aliança agora se desfaz.
Não fazemos, por certo, um belo par.
Não venhas ver-me, amiga, nunca mais...