SEM DESESPERO


"Torn" foto/arte por Tommy Ingberg


André Comte-Sponville (Paris, 1952), filósofo francês cuja corrente de pensamento é alinhada à de outros pensadores europeus de séculos precedentes que adotam o humanismo acima do racionalismo, sem prejuízo da lucidez, e com grande proximidade da visão de mundo de Spinoza, fala da desesperança como uma espécie de ferramenta de que se pode valer a humanidade para livrar-se do... desespero. Pode parecer um paradoxo, mas ele explica: não se trata do estado de desespero, que é sem dúvida aterrador, apocalíptico; trata-se antes de um não esperar, ou seja, um estado próximo à beatitude, em que não se anseia por nada. É esta uma das vertentes do ascetismo: as coisas vão acontecer, quer queiramos ou não.

Um parêntese: longe estou de me considerar um asceta. Padeço, como nos confessou Antônio Girão Barroso, do sofrimento, na “própria carne, de toda a dor da Poesia.” Acontece que por vezes algo me transporta daqui, deste “mundo velho sem porteira” e sem solução.

Em conversa com amigos nos últimos dias, vieram-nos à baila algumas questões que povoam o cenário político (e policial) brasileiro desde alguns anos. O que esperarmos, como desfecho dessa situação?

Ocorreu-me, então, a lembrança das leituras do mencionado filósofo francês. Parece-me que, dadas as circunstâncias em que se desenrolam os fatos na esfera da política (e da polícia) atualmente no Brasil, não há que se esperar tal ou qual desfecho: o que tiver de ser, será. Fatalismo? Creio que não. Trata-se, antes, do convencimento de que o rumo dos acontecimentos, naquela seara, independem da vontade dos principais atores da cena política (e policial) da atualidade brasileira. Imaginem, então, o que cabe a um cidadão como eu, desvinculado de qualquer agremiação partidária, sem compromisso com nenhuma corrente política ou ideológica! Confesso: o meu único compromisso é com a inteireza das minhas convicções. Parafraseando um grande poeta, não sou um homem de partido, porque não consigo partir-me.


Certo, devo continuar atento aos acontecimentos que se sucedem incansável e surpreendentemente, porém convencido de que a sua solução, se é que haverá uma solução em curto ou médio prazo, virá cumprir as expectativas que se acumulam nas mentes e nos corações. Melhor, talvez, a desesperança. Sem nutrir ansiedades, assistir às coisas acontecerem. Afinal, quer eu queira, quer não, elas vão acontecer. Do jeito que for. Na desesperança, sem desespero.

LM
Publicado no O Povo em 30 de maio de 2017