VICIADO EM VIRTUDE

Tem-se que o vício é um defeito, se não de caráter, pelo menos de comportamento. Mas, noutra acepção – mais generalizada, inclusive – o vício pode ser, simplesmente, uma reiterada prática. Nociva, no mais das vezes, outras vezes mera inclinação a um determinado comportamento. Não é raro ouvir-se: Fulano tem o defeito de só dizer a verdade. Esse defeito pode ser definido como um vício?
Lembro um pouco conhecido autor brasileiro que escreveu um dia em suas Moralidades Duvidosas, algo assim: Há determinados defeitos ou vícios que somente por descaso, negligência, ainda são considerados defeitos. As pessoas bem postas na sociedade exercitam uma vaidosa sinceridade ao confessar esses defeitos.
É bom lembrar que a virtude está, muitas vezes, bem próxima do seu falso amigo: a coragem excessiva pode descambar para a temeridade, assim como a prudência excessiva pode tender para a covardia. E há ainda uma virtude que se tem não por querer, deliberadamente, mas por um capricho do destino, como diriam os fatalistas românticos: o amor. E é, no entanto, o único bem que só aumenta quando se dá aos demais... Os outros bens podem minguar, se compartilhados. O amor se multiplica justamente com a doação.
Um amigo me dizia, há poucos dias, que conhecia uma pessoa viciada em praticar a caridade. Pergunte-lhe: será para ser reconhecido pelos amigos como filantropo? De jeito nenhum, respondeu-me. Prefere manter em segredo as suas doações aos necessitados, só pela boca de outrem sendo descobertos seus obséquios, quando isso ocorre, uma vez ou outra.
Claro, a caridade é uma virtude, que em nada se confunde com a prodigalidade. A pessoa generosa sente prazer em ajudar o semelhante, mas não se jacta disso.
A palavra vício tem em dicionário o sentido prevalente de defeito moral, tendência para o mal, ou algo assemelhado. Já na palavra vezo, que tem a mesma etimologia (do latim vitium) abranda-se mais esse sentido, sendo tomada preferencialmente como hábito ou costume. Designa antes uma tendência para algo, porém neutra. Por exemplo: ele tem o vezo de tomar dois banhos por dia.
Passemos a aceitar, portanto, este paradoxo (talvez só aparente): viciado em virtude.
LM
Publicado no O Povo em 16 de maio de 2017


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