LUDOVATICÍNIO



O poema-piada ou poema epigramático refere-se a situações reais ou imaginárias em que o grotesco e o ridículo colidem com o bom-senso e cuja mensagem explora com inteligência a sensibilidade de quem o lê. Mas pode ser também um vaticínio certeiro, como alguns raros poemas que tivemos a oportunidade de ler. Garimpei este de Carlos Drummond de Andrade, que me parece adequadíssimo a estes nossos tempos atuais, em que a disputa pelo poder se dá  numa emulação primitiva e medíocre. Não à toa o poema se intitula “Política literária”:  O poeta municipal / Discute com o poeta estadual / Qual deles é capaz de bater o poeta federal. // Enquanto isso o poeta federal / tira ouro do nariz .
Pensando nisso, lembro as discussões que costumam rolar em ambientes de descontração, como bares, botequins e assemelhados, onde por vezes ocorre uma ruptura: alguém lança um argumento forte em favor de um figurão federal detentor de muito prestígio, em detrimento de outro, de dimensão estadual, este com estreitos vínculos com conhecida personagem municipal.
Isso é o bastante para acender-se uma acirrada polêmica em torno da honra, da capacidade intelectiva, da competência profissional e outros atributos do político de espectro municipal, mais conhecido dos circunstantes. O alcance ou a veracidade do que se põe em relevo no bate-boca importa menos do que as reveladas “relações muito próximas, suspeitíssimas e graves indícios” que mantém o tal munícipe com o citado chefão estadual.
Surge alguém e interpela a todos: “Quero ver quem tem peito de denunciar isso no tribunal!”, jogando mais lenha na fogueira.
Amizades antigas se estremecem e, enquanto se dão esses bruscos rompimentos, a personagem federal se articula subterraneamente com outros personagens federais, seus famigerados inimigos, adversários figadais, a fim de se livrarem de eventuais e inoportunas consequências dos seus atos perpetrados em desfavor das instituições, do país, do povo, inclusive daqueles que por eles se digladiam em foros não convencionais, os quais em nada interferem nas instâncias que realmente lhes interessam.

Parece que Drummond teve um senso agudíssimo do que estava por vir em nosso país, que emoldurasse magistralmente o seu curto e certeiro poema epigramático. Poeta vates é isto. Quer fale de política, quer fale do luar da sua aldeia, tem uma antevisão a partir de um ângulo especial, que abrange todo o espectro sensitivo possível.

LM
Publicado no O Povo em 13 de junho de 2017