CRÔNICA DO EMPAREDADO


São muitas as cidades, especialmente entre as grandes metrópoles, que guardam em sua face arquitetural, seu desenho urbano, sua gastronomia e no perfil dos seus habitantes os traços indicadores de uma herança vinda com o aporte de imigrantes. Estes, chegados de variadíssimos recantos do planeta, amalgamam-se, uns mais, outros menos, no caldeirão étnico dos seus países de adoção.
Duas cidades sul-americanas me chamam a atenção, quando demoro examinando esses aspectos: Buenos Aires e São Paulo. Deixo Buenos Aires fora destas linhas, em que pesem suas semelhanças com a Pauliceia, principalmente quando à feição italiana. Buenos Aires deve ser hoje a maior cidade “italiana” habitada por descendentes daqueles imigrantes.
Em São Paulo, foi recentemente inaugurado o Museu da Imigração, com sede na antiga Hospedaria de Imigrantes, de 1888, no bairro do Brás, que como tal funcionou até 1978. Foi nas últimas décadas do século XIX e primeiras do XX que aportaram as maiores levas de imigrantes a São Paulo. O Museu da Imigração é um espaço amplo, dentro do qual as várias seções nos informam sobre origem, dados da chegada, avaliações de alojamento, situação sanitária e outras informações sobre aquelas pessoas vindas em busca de vida, enfim.
No museu detive-me, na seção em que se encontram as correspondências entre os recém-chegados e seus familiares, lendo algumas cartas de imigrantes italianos. Penso que, por ter escutado desde muito tempo canções napolitanas que falam da dilacerante separação imposta pelo sortilégio de fà l’America, lembrei-me de Lacreme Napulitane, de 1925, uma confissão pungente de quem, na América, até ganhou algum dinheiro, mas não suporta a dor de ter deixado a família em Nápoles e lhe amarga o pão na boca. É feita uma carta e começa: Mia cara madre, stà pe trasì Natale...e lhe implora,  quanno è a sera da Vigilia, que faça o presépio para os seus filhos e ponha a mesa com o seu prato, como se ele também estivesse presente à ceia...

Não sei que emoção me invade mais do que a que experimentei ao ler aquelas cartas; vieram-me à mente os expatriados do mundo. E me lembro dos nordestinos que ajudaram a construir São Paulo e terminaram emparedados em prédios escuros. Como é evocativa e dilacerante aquela música! Irmã de Triste Partida, de Patativa, que Gonzaga cantou em homenagem aos nordestinos que viraram parede de edifício. Ah, légua tirana!
LM
Publicado no O Povo em 11 de julho de 2017