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ESPETÁCULO VERSUS CULTURA





A cultura tem sido objeto de estudos com vistas à sua moderna definição, há mais de três séculos, a partir dos pensadores franceses do Iluminismo e depois por eméritos sociólogos, filósofos e críticos da história em todo o mundo. Lembro aqui nomes que mereceram a atenção de especialistas e estudiosos em geral. Há setenta anos, o poeta T. S. Eliot publicou o ensaio Notas para uma definição de cultura (1948), obra em que indica, já àquela época, a preocupação com a decadência da cultura, prevendo um tempo dela desprovido. George Steiner, vinte anos depois, com seu estudo No castelo do Barba Azul, também nessa direção, reclama do fato de Eliot não ter feito menção ao Holocausto ocorrido na Segunda Guerra Mundial, para ele um fato marcante, um divisor de águas na concepção humanista de cultura. O mal-estar da cultura, de Freud, já parecia preconizar o descambo da cultura tido como valor sugerido pela sua própria etimologia: o culto e a prática do conhecimento elevado.

O movimentos dada e surrealista apresentaram-se como arautos desse fenômeno de transformação do conceito de cultura, dado pelas personalidades do pensamento europeu a que me referi. De lá para cá, mormente nos países menos assentados historicamente, esse processo se instalou de forma avassaladora, onde é hoje a cultura mais um objeto de diversão e espetacularização do que um repositório de valores que se possam cultuar (com estudos e práticas), com vistas à construção de patamares do conhecimento para o futuro.

Quem apreendeu uma noção muito precisa dessa desconstrução foi Mario Vargas Llosa, em sua obra A civilização do espetáculo (2012), em que demonstra que a pós-modernidade destruiu o mito de que as humanidades humanizam. Antes em 1992, o francês Guy Debord já denunciava: “O espetáculo é a ditadura efetiva da ilusão na sociedade moderna”. Na imprensa de um modo geral, assiste-se hoje à espetacularização dos eventos de toda ordem: de um assassinato em uma comunidade ao desfile de um bloco carnavalesco; da comemoração do aniversário de uma pseudoartista à transmissão de uma partida de futebol...

Estamos diante de um processo de substituição da cultura, em seus moldes tradicionais, por uma avalanche de coisas novidadeiras, que podem servir para acumular conhecimentos passageiros, mas não sedimenta a noção de compreensão em profundidade do vasto universos das pessoas, suas aptidões e possibilidades. Vivemos a era do espetáculo em detrimento da cultura.

Publicado no jornal O Povo, em 8 de agosto de 2017