Ah, as cidades!...

Não são poucas as vezes em que sou perguntado sobre qual a minha cidade preferida, não valendo para essa eleição a cidade natal. Pois digo: a minha cidade natal hoje, tal como é, não tem a minha predileção e, sim, aquela que guardo intocável, mítica, em meu relembro de criança. Não se trata de uma projeção mental: ela, na verdade, existe ou, pelo menos, existiu. A cidade de hoje não consegue ultrapassar a de outrora em meu afeto. E não existe outra cidade no mundo entre as mais importantes, mais ricas historicamente ou as mais belas, que vença o amor que nutro pela cidade em que nasci e permanece intacta, imune aos transtornos que atormentam a cidade-agora.

Tenho ouvido amigos fazerem desfilar , em cortejo de preferências, cidades como Paris, geralmente a mais eleita entre todas, quando a escolha se dá entre as mais charmosas ou mesmo as mais belas, sem falar que é a cidade que ouviu Alfred de Musset gemer de amores, em sua paixão romântica. É ela que possui os cafés (isso é verdade!) mais charmants que jamais conheci. Também o Rio de Janeiro costuma aparecer nessas listas. A cidade maravilhosa merece também a preferência de muitos. O caso do Rio é emblemático: hoje, a cidade está imersa em caos econômico, violência, colapso da saúde e da educação e outros males provenientes de repetidas más gestões e roubalheiras. Mesmo assim, de sã consciência, qual o brasileiro que, podendo, não pensa em passar alguns dias no Rio, desfrutando-lhe as praias, os passeios, botecos e museus?

Claro, existem muitas outras cidades dignas do epíteto de prediletas. Uma que exerce em mim um fascínio singular é Santiago de Compostela, na Galícia, coa sua chuvia pola rua, molhando as pedras seculares, de tanta história. Lá, tento comunicar-me em sua língua e escuto palavras e expressões que me remetem à infância jaguaribana, tais como estou canso, na loita, entonce... e outras tantas que herdamos da formosa língua galego-portuguesa. Mas, e Lisboa? Pois é, Lisboa, a tão amada, tem uma atmosfera nostálgica, a par de tantas modernidades. Lisboa é um fado marítimo cantado na Alfama...

Voltando à minha cidade: é pequena e pobre, porém é nela (na verdade, em sua lembrança) que encontro os maiores deleites da alma. É nela que escuto os cantos dos pássaros nas manhãs de areia, regatos, luas e sóis que nunca se apagam em meu relembro. Está nas manhãs de cataventos, boiadas de sonho e brisas alvissareiras que não deixam nunca de soprar em minha memória.

Publicado no O Povo em 22 de agosto de 2017