Pertencimento



O sentimento de pertencer a um determinado povo, nestes tempos de muitas virtualidades, parece hoje arrefecido. A consciência nacional vai cedendo à ideia de que não têm hoje mais valor as características que definiam um povo.
Antes (refiro-me a mais de meio século), era fácil identificar uma manifestação cultural ou artística, como oriunda de determinado país, como, por exemplo, uma canção napolitana, uma chansonette parisiense, uma rumba cubana, um fox norte-americano... Independentemente do idioma em que fosse cantada a música, lá estava a sua “certidão de nascimento”...
Houve uma preponderância esmagadora, principalmente a partir dos anos 1950, e muito acentuada nos últimos trinta anos, da produção artístico-cultural dos Estados Unidos, fazendo com que hoje seja impossível a identificação de uma música em termos de nacionalidade, uma vez que a melodia e o ritmo (ou os ritmos) estão como que pasteurizados. Se isso não é absoluto, é o caminho, há mais de 50 anos.
E quanto às pessoas? Elas ainda se sentem pertencentes a um tal país ou nação? Há quem hoje aposte na supressão das nacionalidades, por vários motivos, indicam. Os deslocamentos de populações inteiras, o encurtamento das distâncias... Sustentam que a globalização terminará por nivelar a todos, transformando-os em pessoas sem vínculo com este ou aquele país, este ou aquele povo. Será a tal “aldeia global”, de que falou Marshall McLuhan? As multinacionais e o mercado, sobretudo, apontam na direção, não de uma pátria única, mas do desaparecimento, inclusive, desse conceito.
Tudo isso que escrevi até agora foi apenas e tão somente para declarar aqui o meu sentimento de pertença: sinto-me brasileiro, mas muito mais do que brasileiro, me declaro jaguaribano (exilado, embora) que, esteja onde estiver, sente a lembrança do perfume de muçambê e marmeleiro verde, misturados ao de terra recém-molhada por uma chuva-do-caju...
Muitos se dizem cidadãos do mundo. Tenho pra mim que isso é meio da boca pra fora... O cara não esquece a sua aldeiazinha natal, mesmo dando expediente na ONU ou em outra organização mundial. Tenho pra mim que o “cidadão do mundo” sonha com o seu lugarzinho escondido na infância e a música que lhe toca o ouvido é a canção que entoavam os seus pais e irmãos em tardes inesquecíveis. Quanto a mim, gostaria muito de ouvir uma toada nordestina, sentado no parapeito do alpendre de outrora...

Publicado em O Povo em 25 de julho de 2017.