Folclore, Folclórico







O que é o folclore? Numa definição lato sensu, o conjunto de crenças e realizações de um povo. Ou se trata de algo mais?
Hoje, é comum dizer-se que algo ou alguém é folclórico, por ser pitoresco ou pouco digno de fé. No Brasil, a palavra está dicionarizada, também com este significado. E em dicionários franceses encontra-se essa acepção. Para mim, nada mais inadequado.
De acordo com  Francisco da Silveira Bueno (GDEPLP, 1974), é “o estudo das tendências religiosas, supersticiosas, artísticas, morais e espirituais de um povo, através de seus cantos, narrativas, danças, celebrações festivas e rituais, lendas e crendices”.
Quando surgiu a palavra folclore (do inglês folk-lore, narrativa popular)? William J. Thoms (1802-1885), no jornal britânico The Athenaeum, edição de agosto de 1846,foi  o criador do termo. Introduzido no Brasil, tentou-se a criação do termo populária  para traduzir a palavra, mas ao fim, terminou por prevalecer o aportuguesamento do termo inglês.
Em se tratando de folclore, no Brasil (sua identificação, descrição, análises e comentários), é impressionante, não apenas para curiosos, mas para qualquer estudioso, o estudo de Luís da Câmara Cascudo (1896-1986),  em seu Dicionário do Folclore Brasileiro (1954), com inúmeras edições. O que Câmara Cascudo conseguiu reunir, com percuciente agudeza de abordagem e descrição, do rico universo folclórico brasileiro, é digno da nossa admiração.
Tudo o que ele recompilou, colocou em fichários e outros arquivos, enquanto preparava a  sua obra gigantesca, deu-se num tempo em que não existiam as facilidades hoje oferecidas pela tecnologia da informática, valendo, aliás, lembrar que toda a sua obra (mais de 135 títulos!) foi inteiramente realizada com os seus arquivos manuais e da memória!
O Dicionário do Folclore Brasileiro compendia anotações preciosas em torno do tema e podemos afirmar que se trata de trabalho que exauriu todas as abordagens e apreciações sobre o assunto.
É praticamente impossível que se busque encontrar notícia sobre determinado tema folclórico, sem que não se encontre no D.F.B., rica e detalhadamente exposta.
A rica bibliografia de Câmara Cascudo inclui outras obras (todas têm suma importância) de extenso significado, como é o caso de O tempo e eu (1968), livro de memórias, e de Na ronda do tempo (1971), também autobiográfico. Serão poucas todas as homenagens que podemos render a esse potiguar de espectro universal.

Publicado no jornal  Povo, em  5 de setembro de 2017