Labatut advertido pelo Saci


Dizem que quando morreu na cidade de Salvador aos 81 anos, onde não assombra ninguém, pelo contrário, tem rua em sua homenagem, Pedro (Pierre) Labatut (1768-1849) saiu de seu jazigo no Mosteiro da Piedade e retornou à Chapada do Apodi, por onde havia estado à procura dos revoltosos de Pinto Madeira, em 1832. Que deambula por ali, trôpego, com uma aparência espectral, em noites horripilantes.

Esse ogro europeu achou de aterrorizar a gente da chapada e áreas circundantes. Mal vestido, ou melhor, vestido de forma muito bizarra, longas barbas, dentes grandes e amarelos, dizem os mais temerosos que esse fantasma medonho chega às casas em noite de lua cheia e exige alimentos e armas. Os sertanejos escondem as suas crianças, com medo de que Labatut queira devorá-las.

Há mais de um século, portanto, essa assombração vem apavorando a gente de lá. Em janeiro de 2002, no município cearense de Icó, no alto Jaguaribe, perto da fronteira com a Paraíba, numa noite de lua e chuvosa ao mesmo tempo, João Malaquias, ex-tangerino (desde 1961 deixara a profissão), voltando à sua casinha após um dia de muita fadiga (eram 10 horas da noite, ele havia ainda passado em casa do seu compadre Severino Graúna, para ouvir os seus causos), viu algo que nunca poderia imaginar: descendo daqueles terrenos ondulados que fazem a fronteira com os paraibanos, ninguém menos que o Saci, em conversa com Pedro Labatut! E que conversa! Pôde João Malaquias escutar muito bem aos dois, pois os seguiu sorrateiramente (mesmo percebendo que o Saci já tinha dado fé da sua presença. Ao Saci ninguém engana).

- General Labatut, V. Exa. ainda por aqui?
- Venho de Uiraúna e Bernardino Batista, moleque. E estou exausto. Com fome e sede. Caminho a pé há três dias. Tenho um encontro ali adiante, no Icó...
- General, vim avisá-lo que se V. Exa. continuar a perambular e espalhar pavor por aqui, morrerá de novo... Só que, desta vez, para sempre.
- Mas, Saci, logo você, que faz arte com todo mundo?...         
- Sim, mas a minha arte é arte mesmo, não é maldade.
- O que dizem de mim é pura invenção, crueldade dessa gente.
- Diga outra, General, porque essa gente eu conheço bem e não tem nenhuma crueldade. Fantasia, sim, mas a fantasia é própria do homem do interior.
- Está bem, então, pura fantasia.
- Não, senhor. A fantasia que se aceita aqui é a que me criou, da forma mais ingênua e legítima, da maneira mais natural, brasileiríssima. V. Exa. é outra história... Francês, não é isso?
- Francês que brigou pela independência do Brasil em Pirajá...
- Francês que cobriu de sangue as colinas gaúchas! E que degolou os cearenses de Pinto Madeira!
- Sou profissional.
- Mercenário, pega melhor.
- Profissional.
- Para acabar a conversa, repito: volte para o seu jazigo, vá embora, em nome da mitologia brasileira.

Depois disso, João Malaquias viu se espalhar uma fumaça espessa, quando o Saci acendeu o seu cachimbo, fazendo desaparecer a Pedro Labatut. E ele também sumiu.



Luciano Maia pertence à Sociedade dos Observadores de Saci – SOSACI, que luta pela instituição do Dia do Saci no Brasil, para 31 de outubro, em substituição à bruxa americana ralouin (halloween), inventada aqui há pouco tempo. O saci é brasileiro!