VISCA CATALUNYA




Os catalães irão a 1º de outubro votar no referendum que decidirá sobre a independência da Catalunha. Não é a primeira vez que os catalães votarão sobre essa questão. O governo de Madrid se coloca, como sempre, contrário à realização dessa consulta, por considerá-la ilegal.
Não entrarei aqui no mérito político ou jurídico do referendum. Não conheço em profundidade a legislação pertinente ao caso. Apenas desejo tecer breves comentários sobre a cultura da Catalunha, particularmente no que toca à sua língua e à sua literatura.
Nomes como Ramon Llull (c.1232-1315), Bonaventura Carles Aribau (1798-1862), Jacint Verdaguer (1845-1902) e outros do panteão são apontados como pilares da cultura catalã, que tem características muito próprias.
A língua, atestada desde o século IX, experimentou diversas fases, em que se alternam o florescimento, o declínio, o ressurgimento e até a sua proibição, até chegar ao novo Estatuto Catalão de 2006. Tão antiga quanto a castelhana, esta última alçada a língua oficial de todos os espanhóis por força da aliança de Aragão e Castela, o catalão, sem embargo, tem sido veículo de uma literatura muito rica na prosa, na poesia, no teatro e em obras de cunho literário e científico. É idioma apto a todas as minifestações, em qualquer campo de atividade. Considerada língua-ponte, por alguns linguistas, entre o occitano (sul da França) e o castelhano, na realidade é idioma continuador do latim falado na região, com todas as suas particularidades, como qualquer outro idioma.
O referendum do próximo domingo, 1º de outubro, determinará o destino desse idioma, uma vez que a independência da Catalunha significará um impulso formidável e decisivo no fortalecimento das suas instituições culturais e a adoção integral da língua na imprensa, na universidade e demais centros de cultura da Catalunha, como único idioma oficial, sem prejuízo do uso do castelhano e demais línguas da Espanha em situações específicas.
Particularmente, nutro uma simpatia muito forte por essa língua, como pelas demais línguas românicas regionais: o romanche, o napolitano, o occitano e outras ditas menores que são, na verdade, códigos linguísticos sem os quais perde  o universo cultural da humanidade. Uma língua, quando restringida e pouco utilizada publicamente, transforma-se num rio subterrâneo que emergirá um dia, adiante, com todo o seu caudal. E o caso da língua catalã, que esteve proibida durante a ditadura franquista, é emblemático. Os catalães nunca abriram mão do seu uso: era de arrepiar ver o estádio do Camp Nou lotado, todos a cantar Els Segadors (o hino nacional da Catalunha) e em seguida o hino do Barça, todos em catalão, por óbvio! E a justificativa também era óbvia: os hinos estavam compostos em catalão!... Catalunya triomfant tornarà a ser rica i plena / endarrera aquesta gent tan ufana i tan superba!

O próximo dia 1º de outubro será para a língua catalã (em cuja poesia encontramos a palavra insuperavelmente bela – tardor – para outono!) uma oportunidade de seu maior revigoramento. Visca Catalunya!