OFENSA





Desdenhei do granito, ó companheira,
Do qual te poderia ter moldado.
Busquei na argila do país amado
Teu corpo esbelto e com odor de cera.

Recolhi terra em bosques ancestrais
E amassei-a com minha mão de oleiro
Em partes, cada membro por inteiro
Teu ser pequeno, em sílex fugaz.

Esmaltei os teus olhos de verbena
E os cílios foram folhas de roseira.
As sobrancelhas, ramos em fileira
De erva recente, de uma luz amena.

O teu dorso dos cântaros formei
E se em teus seios tenho demorado
Com mão acesa, sinto-me culpado
Se na cintura a estátua não findei.

E quis ao corpo teu doar afeto
sentindo o tatear dos dedos meus.
Que a doce pena que nos doa Deus
Fosse de mim, te enchesse por completo.

Mulher que em mim a tentação encerra!
Hoje pesar, mas viva, te perdi.
Por que te fiz de argila, e me iludi
Não deixando pra as ânforas a terra?


(Tudor Arghezi, autor - Luciano Maia, tradutor)