BREGA!

Tudo leva a crer que a palavra brega tem a mesma origem de briga. Brega está presente no hino nacional catalão, com o significado de combate: Bon cop de falç quan vulguin moure brega! (bom golpe de foice quando queiram provocar briga!). Também em espanhol brega tem o sentido de briga, contenda. Nos dicionários brasileiros de expressões populares lá está breca (levado da): que sofre um acidente, que se machuca, que se dana, ou seja, diz-se de alguém que se mete em encrenca. E temos a palavra esbregue, que significa reprimenda enérgica: deu-lhe um esbregue. Esta última parece estar relacionada também com o lugar em que é costumeira a prática de arruaças e desavenças. No Huaiss, brega é de qualidade reles, inferior e também zona de meretrício. Há, aqui, a possibilidade de que brega seja forma derivada de esbregue ou vice-versa.
Briga, em português, como nas demais línguas ibéricas, tem o mesmo sentido de altercação, desavença. Está, pois, evidente que sua origem se confunde com a de brega. Devem ser, aliás, a mesma palavra, dita de duas formas.
Vê-se hoje que, por extensão, no Brasil brega ganhou semanticamente o estatuto de adjetivo (coisa brega), advindo do lugar em que costumavam haver... brigas. Agora, perguntamos: o que é finalmente brega na linguagem popular, na língua falada em nosso país? Tem tomado a acepção de algo ou alguém de gosto duvidoso, sem o refinamento da criação de melhor nível. Isso, na perspectiva de quem está alheio ou isento à coisa...
Há uma pitada de preconceito nisso, inclusive quando alguém quer ouvir, num bar ou mesmo numa apresentação pública, alguma coisa dita brega, para risadas e olhares numa cumplicidade de tola matreirice e certo esnobismo: “adoro música brega”...  Autores de música brega têm o seu público fiel, sem essas demonstrações de galhofa inútil. A música que se faz hoje (refiro-me ao Brasil, mas desconfio que o fenômeno seja mundial) sofre uma dicotomia: de um lado, os autores que exercitam o bom gosto, os ditos geniais da MPB; de outro, os bregas.  Isso se dá porque não há uma natural parceria entre os letrados e os autores intuitivos.
Mas houve uma época em que isso era possível: Ismael Silva (filho de cozinheiro e lavadeira) e Noel Rosa (de classe média alta). Aí não havia a separação, hoje tão evidente, entre os gostos musicais, quando a classe média intelectualizada “visita” a música dita brega, como uma espécie de concessão bem humorada...

Publicado no jornal O Povo, em 17 de outubro de 2017