DUAS OBRAS-PRIMAS DO FOLCLORE ROMENO
(tradução de Luciano Maia)

A Lenda do Mestre Manole e A Cordeirinha constituem, com toda a razão, o cume da poesia popular romena. É significativo que estas duas criações do gênio poético romeno tenham como motivo dramático uma “morte violenta”, aceita com serenidade.
Pode-se discutir ao infinito se esta concepção deriva diretamente ou não da famosa alegria de morrer dos getas. Fato é que o folclore poético romeno não conseguiu jamais superar estas duas obras-primas elaboradas em torno da ideia de morte criadora e serenamente aceita.
                                                                                    Mircea Eliade





A LENDA DO MESTRE MANOLE



Rio Arges à margem,

da bela paisagem

seguindo a jusante,

caminha elegante

o Príncipe Negro

mais dez companheiros:

nove bons obreiros,

exímios pedreiros

e Manole – o décimo

de maior conceito.

Buscam pelo vale

um lugar que calhe

a um belo mosteiro

faustoso, cimeiro,

lugar de retiro.

Assim prosseguiam,

quando adiante viram

flauteando mansinho,

jovem pastorzinho.

Tão logo o avistou,

o Príncipe falou:

- Ó belo pastor

de flauta em clamor!

Rio Arges acima

teu rebanho mimas,

Arges a jusante,

teu rebanho andante!

Terás avistado

onde tens passado

ruína e monturo

de inconcluso muro

por entre as madeiras

das avelaneiras?

- Senhor, avistei

por onde passei

ruína e monturo

de inconcluso muro.

Cães, ao avistá-lo,

vão assediá-lo

furiosos, ladrando,

a morte augurando.

O Príncipe, ao ouvi-lo,

mostrou-se tranquilo,

partindo em seguida

em busca da ermida

com os nove pedreiros

e Manole – o décimo

de maior conceito.

*

- Eis aqui meu muro!

Aqui farei, juro,

um belo mosteiro,

faustoso, cimeiro,

lugar de retiro..

Vocês, bons obreiros,

exímios pedreiros,

já, já se preparem

para começarem

logo a construção.

Erguer aqui vão

um mosteiro tal

qual não houve igual;

dar-lhes-ei haveres,

fá-los-ei alferes.

Mas, se não, vassalos,

mando emparedá-los

e entre os muros, juntos,

serão dez defuntos!





Os mestres cuidaram,

o sítio aplainaram,

linhas esticaram,

os fossos cavaram,

trabalhando duro,

levantando o muro.

Mas o que se erguia

no claro do dia

no escuro da noite

tombava de açoite.

Dois dias se vão,

três dias se vão,

quadro dias – Não! –

lutavam em vão.

O Príncipe ralhava,

e os admoestava,

sombrio cismava

e os ameaçava

nos muros prendê-los,

defuntos fazê-los!

Nove bons obreiros,

exímios pedreiros,

choravam lidando,

lidavam chorando:

ao luar do verão

faziam serão.





Manole hesitava,

não mais trabalhava;

quando se deitava

pra dormir, sonhava.

De noite, acordou

e o sonho contou:

- Nove bons obreiros,

exímios pedreiros,

sabem o que sonhei

quando me deitei?

Disse-me uma voz:

tudo quanto nós

façamos no dia

à noite ruiria,

se não decidirmos

nos muros prendermos

a mais estimada,

seja esposa amada

ou dileta irmã,

a que, de manhã

primeira surgida

nos traga comida.

Assim, se quereis

erguer de uma  vez

o santo mosteiro

faustoso, cimeiro,

lugar de retiro,

que nos combinemos,

que juntos juremos

e todos, sem medo,

façamos segredo:

esposa ou irmã

que venha amanhã,

primeira a chegar

a este lugar,

está sorteada:

será emparedada!





*

A aurora raiava,

Manole acordava,

o muro escalava,

subindo de um salto

o andaime mais alto.

A vista estendeu

no campo e – Deus meu!

mirando o horizonte,

quem descia o monte?

Sua amada divida,

a flor da campina!

Ela se acercava,

feliz caminhava

trazendo-lhe vinho

e almoço quentinho.

Enquanto a olhava,

a alma se agitava;

de joelhos caiu,

chorando pediu:

- Senhor, faz chover

a mais não poder,

que corram os rios,

profundos, bravios

e que as águas cresçam

os passos lhe impeçam,

que a detenham já,

não chegue até cá!

Deus se apiedou,

seu rogo escutou,

as nuvens reuniu

e céu se cobriu.

Caiu num instante

chuva espumegante

que fez as torrentes

correrem fluentes;

mas a água avançava

e ela não parava.

Mais e mais andava

já se aproximava.

Manole a avistava

peito em disparada,

a alma ajoelhada

e então implorava:

- Senhor, sopra um vento

veloz, violento,

que as folhas desfolhe,

que as figueiras dobre,

que a amada detenha,

que ela cá não venha,

que os montes abale,

que a leve do vale!

Deus se apiedou,

seu rogo escutou

e um vento soprou

que o chão balançou,

pinheiros dobrou,

frondes desfolhou,

montes abalou;

mas a sua Aninha

já nada detinha!

Apressava o passo,

vencendo o cansaço;

já se avizinhava

e agora, coitada,

ei-la já chegada!



*

Os mestres obreiros,

exímios pedreiros,

muito se alegraram

quando a avistaram.

Manole, abalado,

beijou-a calado,

tomou-a nos braços

e logo em dois passos

subiu os andaimes

e a pôs entre os muros,

dizendo em sussurro:

- Fica aqui no meio,

não tenhas receio,

pois vamos brincar

de te emparedar!

Ela em tudo cria

e alegre sorria.

Manole arquejava

mas já começava

o muro a erigir,

seu sonho a cumprir.

O muro subia,

a ela comprimia

pelos tornozelos,

logo nos joelhos:

e ela, o que fazia?

Já não mais sorria

e aflita pedia:

- Manole, Manole,

meu mestre Manole!

O muro me cerca,

o corpo me aperta!

Manole calava

e mais trabalhava.

O muro avançava,

e mais a apertava,

pelos tornozelos,

logo nos joelhos,

já pelas costelas,

já nos seios dela.

O que lhe restava?

A pobre chorava,

em vão suplicava:

- Manole, Manole!

O muro me cerca,

o peito me aperta,

ninguém me socorre,

meu filhinho morre!

Manole calava

e mais trabalhava.

O muro avançava

e mais a apertava

já pelas costelas,

já nos seios dela,

já à boca chegava,

seus olhos tapava,

ela já sumia,

apenas se ouvia

sua voz que dizia:

- Manole, Manole,

O muro me oprime,

meu corpo comprime,

a vida se extingue!



*

Rio Arges à margem

da bela paisagem

seguindo a jusante,

retorna elegante

o Príncipe Negro,

reza no mosteiro

faustoso, cimeiro,

um mosteiro tal

qual não houve igual.

O Príncipe o olhou,

se regozijou

e então perguntou:

- Vós, mestres obreiros,

exímios pedreiros!

Dizei, com respeito,

a mão sobre o peito:

se mestres existem

que me construíssem

um outro mosteiro

lugar de retiro

mais que este formoso

e mais luminoso?

Os mestres obreiros,

exímios pedreiros,

subiram ligeiro

ao teto cimeiro:

- Como nós, pedreiros

ou mestres obreiros

iguais não sabemos

que existem, ao menos!

E somos capazes

de erigir, audazes,

ainda outro mosteiro,

faustoso, cimeiro,

bem mais luminoso

e até mais formoso!

O Príncipe escutou,

cismando quedou...

Depois ordenou

andaimes quebrar,

escadas tirar

e então, que os pedreiros,

dez mestres obreiros

morressem de fome,

podres e sem nome,

ficando retidos

ali, desvalidos,

Os mestre pensaram

e então fabricaram

asas voadeiras

de ripas maneiras.

Depois se jogaram,

no espaço saltaram,

mas logo desciam

e onde caíam

seus corpos rompiam.

E o pobre Manole,

o mestre Manole,

quando procurou

também alçar voo,

eis que pôde ouvir

do muro a sair

a voz abafada,

a voz da sua amada,

que grave gemia

e assim repetia:

- Manole, Manole,

meu mestre Manole!

O muro me cerca,

o peito me aperta,

meu corpo comprime,

meu filhinho morre,

ninguém me socorre,

a vida se extingue!

Manole a ouvia

e o tino perdia,

o olhar se embaçava,

o mundo girava,

o céu volteava:

e do alto da ermida

tombou já sem vida!



*

Onde ele caiu,

o que então surgiu?

Uma fonte amena

de água pequena,

tépida, salgada,

lágrima brotada!...







*



A CORDEIRINHA



Ao pé da colina,

paisagem divina.

Nada que os abale,

vêm descendo o vale

três quietos rebanhos,

enturmados anhos

sobre as verdes cores

com seus três pastores:

um é moldaviano,

outro hungariano,

outro vranceano.

Eis, o hungariano

mais o vranceano

juntos maquinaram

e se combinaram

que, ao sol tombar,

vão eles matar

ao moldavo, tido

como o mais querido,

que tem mais ovelhas,

cornudas, vermelhas,

e cavalos destros

e cães mais espertos!...



Mas a cordeirinha

de lã bem lourinha,

há três dias idos

não cala os balidos,

jejuns e sentidos!

- Minha cordeirinha,

testa cinzentinha,

há três dias idos

estes teus balidos

jejuns e sentidos!

Estás doentinha,

minha cordeirinha?



- Meu querido amo,

tange o teu rebanho;

do rio a montante

há pasto abundante,

sombra refrescante.

Patrão, meu patrão,

chama por um cão,

o mais valoroso,

o mais corajoso,

que, ao sol tombar,

querem te matar

esse hungariano

mais o vranceano!



- Minha cordeirinha,

se tudo adivinhas,

se hei de ter a morte

do campo ao recorte,

diz ao vranceano

e ao hungariano

dar-me sepultura

junto à cercadura

do redil mais tosco,

para estar convosco;

por trás do redil,

eu ouço o canil.

Diz-lhes e aconteça

de eu junto à cabeça

ter flauta de faia

que o amor ensaia;

flautinha de osso

que dolente eu ouço;

flauta de sabugo

num toque de fogo.

Vento que me embala

por elas resvala,

soprando-as e então

elas chorarão

por mim pranto exangue,

lágrimas de sangue!



Mas tu, de vingança

não lhes dês lembrança.

Diz-lhes simplesmente

que fiz minha esposa

princesa formosa,

do mundo a mais bela;

que na boda aquela

caiu uma estrela;

foram sol e lua

dar-me uma coroa;

pinheiros velhinhos

forma meus padrinhos;

padres, altos montes,

pássaros cantantes,

aves mil presentes

e estrelas cadentes!



Mas se a vislumbrares,

se tu a encontrares,

a velha mamã,

vestida de lã,

olhos lacrimando

os campos rondando,

a tudo indagando

a todos falando:

- Alguém conheceu

quem viu ou se deu

com jovem pastor

talhe sedutor,

a face de pluma,

qual do leite a espuma,

bigode de espigo

qual pendão de trigo,

um cabelo turvo,

qual pena de corvo,

e olhos, campo afora,

como a cor da amora?

Tu, minha cordeirinha,

tem dó da mãezinha

e diz-lhe somente

que esposei contente

princesa divina

ao pé da colina.

A ela porém

não digas também

que na boda aquela

caiu uma estrela,

que foram padrinhos

pinheiros velhinhos,

pássaros cantantes;

padres, altos montes,

aves mil presentes

e estrelas cadentes!...