COM A SENHORA OUTONO

NO QUARTO



Bateu-me hoje à noite a Senhora Outono na vidraça,

Bateu-me com os dedos da chuva.

E assim, como a cada ano,

Pediu-me que a deixasse entrar no quarto.

Que me traz uma caixa de fumo para cachimbo

E charutos de Rotterdam.



Olhei à minha volta e em mim:

O quarto frio,

A pipa fria,

A mão fria,

A boca fria.



Ó Senhor!... Como podia deixá-la partir?

Se partisse, quem sabe quando ainda viria?

Se neste Outono talvez

A Senhora Outono me bate

Pela última vez na vidraça?

Donnez-vous la peine d’entrer, Madame.



E a mulher com olhar esfumado

Entrou, suspeita e humilde,

Como uma mentirosa profecia

De Sibila.



Entrou

E o meu quarto num instante

Se aqueceu como um forno de pão

Apenas com a espiral de uma fumaça de pipa.

E com o beijo da Senhora Outono para mim

Ela morrerá... ah!

Acometida de febre.



(Ion Minulescu - tradução de Luciano Maia)