OS PASSOS DO PROFETA



Enfiei os calcanhares no pedregal.
Para me mostrar o quanto mais os astros do firmamento,
a terra faz ajoelharem-se os montes em meu caminho
como um camelo curva os ombros calvos.

Aonde quer que eu vá
por entre a multidão,
carregado de sonhos, que levo ao mar –
os meus passos secretos… são tão silenciosos
que não os ouve ninguém ao redor, –
mas os meus passos silenciosos são tão secretos
que se ouvem até no sétimo céu.

Eu sou o profeta; o fantasma do tempo não me alcança.

Por onde vim até aqui?
– Pela Via Láctea?...

Um vento aceso em fogo pelo deserto me arremessa
areia nos olhos
gafanhotos nos cabelos –
e as narinas do ermo respiram no caminho
perfumes de figo.

Coração,
por que suspiras?
Atravesso o deserto vazio por entre os cactos –
e conto as minhas pegadas deixadas
entre as estrelas
entre os espinhos.

(Lucian Blaga, Opera Poetica. Bucareste: Humanitas, 1995.
Tradução de Luciano Maia)