O RAPSODO GERARDO



Em conversa com o meu amigo poeta e romancista Carlos Emilio Correia Lima, ele me advertiu: Não vamos deixar passar o centenário de Gerardo Mello Mourão em branco! Cem anos são cem anos! Imediatamente, entramos em contato com outro poeta: Carlos Augusto Viana que, sendo Diretor de Cultura do Ideal Clube, terá que nos contemplar (com muita honra, nos disse) com o espaço do Ideal – o mais prestigiado da cidade para eventos dessa natureza – e lá festejarmos a data, com palavras em torno da figura e da obra de Gerardo, poeta maior do Ceará, de espectro universal.

Conheci Gerardo no final dos anos setenta ou início dos oitenta do século XX. Nas primeiras oportunidades em que conversamos, num apartamento da Avenida Beira-Mar, lembro-me bem, no Edifício Arpoador, deu-me autografados País dos Mourões, Rastro de Apolo e Peripécias de Gerardo, que formam a trilogia intitulada Os Peãs.

Disse-lhe que escrevia versos. Ele me advertiu: Escreva versos, faça poemas de amor, mas não se esqueça do épico! Vamos abrir uma picada rumo do épico, me disse com voz forte, escandindo as sílabas, como gostava de falar. Terá sido uma exortação ao Jaguaribe – memória das águas, que estava em gestação – pelo menos na intenção –  tendo sido publicado logo depois? Seja como for, lembrando Gerardo, o que há de épico em meu livro não impede a presença do lírico, a forma ideal de enaltecer o amor e os sentimentos recônditos. Alguém disse, uma vez, tratar-se (o Jaguaribe...) de um épico-lírico. Voltando a Gerardo, ele nasceu no dia 8 de janeiro de 1917 e eu, vejam só, sou do dia 7 de janeiro. Impossível não me lembrar do seu aniversário!...  Pois não fosse o Carlos Emílio, é possível que quando eu me lembrasse da data, já tivesse terminado este ano em que o poeta completa os cem anos de um existência devotada à cultura .
O gênio criador de Gerardo Mello Mourão é de um espectro vasto. A sua escritura foi reconhecida e admirada por pessoas de quem não podemos pôr em dúvida a lucidez e a honestidade intelectual: Ezra Pound, Octavio Paz e Carlos Drummond disseram, com todas as letras, que desejariam ter escrito os versos que escreveu Gerardo! Drummond chegou a dizer que quando pronunciava Gerardo, era como se pronunciasse Dante! Por isso é que essa homenagem que lhe prestamos – merecidíssima – acena para a necessidade de inscrevermos com letras de bronze, no mármore, os nomes dos grandes criadores da literatura e da cultura brasileira.

Publicado em O POVO, em 28 de novembro de 2017.