OS CÁTAROS


A história do fenômeno cátaro e dos “bons homens” do sul da França nos remete, implicitamente, à questão da heresia. Uma questão tão velha quanto o cristianismo e cujas respostas indicam a vontade firme da Igreja católica, ou seja, do papa, de afirmar sua primazia no que respeita à herança do Cristo e dos Apóstolos, isto desde a Antiguidade.

Desde o Século II, os padres da Igreja, ocupados com a construção dos dogmas da Igreja católica (universal, em grego) através de acesas polêmicas, colocaram de lado todas as doutrinas divergentes. Essas dissidências foram consideradas, todas elas, heresias, porquanto se postavam contra a instituição eclesiástica nascente. Após o ato de Constantino, imperador de Roma, no século IV, conferindo ao cristianismo, praticamente, o estatuto de religião oficial, a Igreja católica torna-se a única referência religiosa digna deste nome.

Algumas pessoas, entretanto, continuam a contestar a leitura oficial das Escrituras, imposta pelos sucessivos concílios organizados pelo papado. Tem-se que a única oração cátara é o Pai-Nosso e difere da católica apenas quando substitui “o pão nosso de cada dia” por “o pão nosso supra-substancial”. A palavra cátaro vem do grego e significa “puro”.

O surgimento de comunidades cátaras em várias regiões da Europa e, com mais vigor, no sul da França, deve ser considerado à luz desse contexto. Vários clérigos itinerantes e predicadores, em nome do ideal evangélico, passam a pregar em nome do verdadeiro cristianismo, condenando a posição oficial, ou seja, do Vaticano.

Essas pregações terminaram por organizar-se em vários templos espalhados pelo sul da França, o que implicou várias intervenções papais, através de enviados do papa, intervenções essas que não surtiram nunca o sucesso desejado por parte do Vaticano. Por volta de 1142, um monge renano, de nome Evervin de Steinfeld, escreve a Bernard de Clairvaux (o futuro São Bernardo), dando conta do surgimento de várias comunidades “heréticas”.

É então que entra em cena o império francês, aliado do papa, e organiza, com sua bênção, a cruzada contra os cátaros (contre les albigeois, em francês; Albi, comunidade cátara). É emblemática a invasão e destruição de Béziers, em 1209: segundo um célebre cronista da época, Césaire de Heisterbach, Arnaud Amaury, legado pontifício, ao receber a informação de que homens, mulheres e crianças haviam-se abrigado no interior de uma igreja (e eram muitos), não se podendo distinguir entre heréticos e católicos, ordenou: - Matem todos, Deus reconhecerá os Seus! Este episódio ficou conhecido na história como o massacre de Béziers.

O império francês sonhava em estender-se até o Mediterrâneo. Àquela época o rio Loire fazia a fronteira entre o domínio francês e a Occitânia, então governada por dinastias, como a de Raymond de Trencavel, dos condes de Toulouse e outras. No afã de estender o seu poder político sobre a Occitânia, o rei da França, Luís IX, consegue dominar toda a Occitânia, formando novos territórios administrativos sob o domínio real.

A partir daí o que se vê é a supressão da língua occitana, com a imposição do francês como única língua oficial e todo tipo de perseguições, desapropriações e atos de intolerância político-religiosa.

Os cátaros, na tentativa de salvar o que para eles era a boa doutrina do Cristo, tornaram-se dissidentes da Igreja, uma atitude jamais tolerada pelo Vaticano, àquela época ainda em plena expansão e com poderes políticos sobre uma ampla região em vários pontos do ocidente europeu.

Diário do Nordeste, 03 de março de 2013