UM VELHO ARA UMA COLINA

O fogo assíduo do verão
e a água que chora a chuva fina
o testemunho sempre dão:
um velho ara uma colina.

Vai-se a estrela derradeira
e nova luz grimpa os espaços.
A mão do sol pousa vermelha
sobre os terrenos orvalhados.

Desse provecto lavrador
são muitos anos na retina.
Além do tempo, além da dor
um velho ara uma colina.


A esperança amanhecida
renova as flores nos outeiros
e dessa faina  repetida
faz-se o labor de anos inteiros.

Estradas vêm, caminhos vão
e a mesma terra ele capina.
Sem jamais ter deixado o chão
um velho ara uma colina                                                  

E com o grão ele se funde
em tempo e cor e madureza.
Não que a terra já lhe inunde
o corpo: a alma, com certeza.

E assim antigo e assim de tempo
é o seu cultivo a sua sina.
Mãos de neblina, olhos de vento
um velho ara uma colina.