TRILOGIA DO PÃO E DO VINHO


Ó companheira, o pão que se reparte
e o vinho que por nós ora é sorvido
são caminhos levando a toda parte
a verdade de um sonho repartido.
O pão e o vinho: a interação da arte
de entregar a paixão, o pressentido
desejo de rever-me ao reencontrar-te
o olhar sempre em meus olhos refletido.
A minha mão encontra a tua mão
e os instantes fecundos adivinho
qual o brotar esplêndido de grão.
Searas, maravilhas no caminho
das colheitas futuras, nosso pão
enaltecido no sabor do vinho.




   



II

O pão é o nosso amor compartilhado
e o vinho é a experiência desse amor.
Se o pão nos traz o grão multiplicado
acresce o vinho tudo o que mais for.
O pão, desejo humano em paz tornado
e o vinho, a emoção superior
de colher o instante desejado
da comunhão da sede e do sabor.
Com pão constrói-se a paz, disse o poeta.
Com vinho a nossa alma se inebria
da universal canção, rosa secreta.
De pão e vinho chegará o dia
da colheita geral, da paz completa
de podermos cantar essa alegria.



III

O braço estende uma semente ao chão
e o chão lhe entrega a força da semente
multiplicada no fulgor do grão
que na forma de pão se faz presente.
Os frutos da parreira, em profusão
pendem dos ramos, bem ao solo rente
na promessa do vinho – anunciação
do tempo da sazão benevolente.
O trigo é um libelo contra a fome
e a sede da paixão é cor do vinho.
A conjunção é paz e liberdade.
Pois repartir o pão e o vinho em nome
do bem comum é o único caminho
 que há entre o homem e a felicidade.