SONETO DO VIÚVO


Quando a tarde reclina a face triste
sobre o muro sem cor do avarandado
um velho, que em viver sonha e resiste
debruça sobre a noite o olhar parado.
De braços com a memória, o velho insiste
em visitar de novo o seu passado.
Sofre, sorvendo o tédio que hoje assiste
à saudade de moço e enamorado.
Por que seu tempo, que já foi futuro
e desejo de prenda e comunhão
hoje é passado agora e tão escuro?
Porque sua noite, que já foi paixão
e deitava as estrelas sobre o muro
é hoje solitária escuridão...