CONTO DE NATAL

Maria avistou três luzes
alumiando o roseiral.
O brilho de três estrelas
fez-se presente, em sinal
da noite que se acercava
do horizonte vesperal
cobrindo a face dos ventos
com seu manto de cristal.
O minúsculo jardim
de colorido frugal
trazia, na morna aragem
um perfume tropical.
Maria sentiu desejos
de caminhar no areal.
A cor do sol se deitava
no leito celestial
tingindo o ouro da tarde
e do azul primordial
dos gumes que se trespassam
nesta hora emocional
de despedida e de encontro
entre os panos do varal
no único vão de sua casa
perfil do sopro terral.
Maria lembrou-se, então
neste dia de Natal
do seu Natal cor de sangue
daquele instante fatal
do filho que lhe nascera
em seu distante arraial.
Chegara e logo se fora
dia primeiro e final
indo a vida e vindo a morte
pobre filho marginal
sem tempo, sem pai, sem Deus
sem destino, sem Natal.
Pobre filho de Maria
flor humana em sangue e cal!
(o filho de Deus nascera
mas não redimiu-lhe o mal).