SONETO DE PERSONAGEM

ENCARNADA



Ó mamulengo triste do Nordeste!

galopando o teu riso salteador

fazes cinema no reboco agreste

figura de arremedo e de impostor.

Acoitas um trejeito cafajeste

num palco de escandelo e de clamor.

Poeta doido, que mal se traveste

de alegria, a convite de mais dor.

Ó meu bizarro amigo de encarnado!

vejo-te exílio, pranto em vez de dengo.

Oculto povo, mudo e desterrado...

Vaqueiro nordestino, lengo-tengo...

Estrebucha o teu tempo decepado

caçoa do meu choro, mamulengo!






 

SONETO EM PRETO E BRANCO

Retrato sóbrio, de retoque isento.
Arquitetura de um semblante moço
envelhecido no incansável tempo
que lhe fatiga o esquálido arcabouço.
Nos caminhos do rosto macilento
passeia a cor da morte, em pele e osso.
Este homem das horas é detento:
não lhe sobra mais tempo para o almoço.
Este operário é número inexato
saldo a menor, credor do desencanto
de mal consigo, com os demais, cordato.
A foto lhe reduz o gesto franco
à exígua relação de um 3 x 4:
prisioneiro da vida, em preto e branco.