O BERÇO


Estava muito cansado e sofria.
Eu creio que sofria de excesso de alma.

Pelas colinas, a alvorada abria as pálpebras
e os olhos avermelhados de cansaço.

Perdido – me perguntei:
ó Sol, como ainda sentes a louca alegria
de nascer?

E naquela madrugada sem sono
a perambular com passos de chumbo,
dei num recanto escondido com um berço.
As aranhas teciam nele os seus mundos minúsculos
e os cupins roíam-lhe o silêncio.

Olhei-o com o pensamento totalmente aberto.
Era um berço,
onde uma mão envelhecida hoje pela minha sorte
tinha embalado o meu primeiro sono, o meu primeiro sonho.

Com os dedos da lembrança, apalpei devagarinho,
demoradamente, o meu passado, às cegas,
e sem compreender porquê, deixei-me cair e aos soluços
fiquei a chorar sobre o meu berço.

Estava tão cansado de primaveras,
de rosas, de mocidade e de riso!
Delirando, procurava-me no velho berço
com as mãos sobre mim mesmo
   como uma criança.