FUGA E POESIA
Fugindo de paixão arrasadora
foi ter ao bar, àquela confraria
onde qualquer presença é companhia
qual de um amigo de infância fora.
Nessas horas, é bem consoladora
qualquer bebida, qualquer alquimia
que ilude o tempo e traz uma alegria
passageira, fugaz, enganadora.
Fugiu do fogo da alma em combustão
da paixão sem encanto e sem valia
e foi para onde os desprezados vão.
Mas se deu o milagre: um belo dia
sentiu a penetrar-lhe o coração
a dádiva sublime da Poesia.


FUGA E POESIA II

Para quem perde uma ilusão, enfim
para quem na paixão se desconsola
e sai em busca de uma triste esmola
de amparo e escuta um suave bandolim
acompanhando acordes de viola
e uma canção antiga chega assim
calma, de um tempo que já teve fim
ele, então remoçado, cantarola…
É que, às vezes, é de um tempo puro
vindo de longe que ao presente dia
se diz adeus e joga-se ao futuro
a sorte e então se tem por companhia
aquela luz, tornando o que era escuro
na vasta claridão da Poesia.