O PAEAN DAS IPUERAS


Euclides da Cunha (1866-1909) disse, num poema, ser “misto de celta, de tapuia e grego”.  Essa assertiva presta-se, à perfeição, ao rapsodo Gerardo Mello Mourão (1917-2007), este paean das Ipueras (grafo assim Ipueras, sem a posterior contaminação). O autor de Os Sertões condensou naquela frase a sua origem em três vertentes primazes: grego, pela herança civilizacional mediterrânea, que teve em Roma o seu crisol; celta, como reconhecimento aos antepassados que meio civilizaram a península ibérica, e tapuia, aporte mais recente e pleno de vitalidade (tapuia não é tribo, mas um difuso conjunto), como testemunho da descendência dos povos aborígenes habitantes dos ermos dos sertões (os tupis do litoral lhes puseram esta designação, significando língua travada, ou seja, que não falavam o tupi...).
Se considerarmos que estes povos foram já miscigenados desde sempre, temos que Euclides se disse – brasileiro! E o poeta das Ipueras não apenas se dizia desta tríade, como em verdade viveu, sonhou e criou qual um herdeiro convicto da matriz mediterrânea com boa dosagem brasílica. Um atlanto-medieterrâneo.
 Gerardo era possuidor de uma carga de informações culturais tão vasta (onde se agrupavam a história das literaturas, a filosofia, a teologia, entre outras), que ao conversarmos com ele, tínhamos a sensação de estarmos começando a ouvir tudo de novo. Em Os Peãs, (de paean, cântico em louvor de Apolo e um dos seus epítetos) o poeta Gerardo reuniu a sua trilogia País dos Mourões, Peripécias de Gerardo e Rastro de Apolo. A obra Os Peãs, épica e lírica a um só tempo, tem uma dimensão que ultrapassa em muito o que os títulos sugerem, sem, no entanto, alterar o significado primordial e imenso, considerando-se a verdade  histórica, cultural e mesmo psicológica daquela herança de matriz enriquecida.
Desde a juventude, o poeta fez profissão de fé (com a Irmandade da Orquídea), de seguir, em sua trajetória escritural, a Dante. – “Ou Dante ou nada!”, era o lema daqueles jovens entusiastas da cultura clássica. Foste Dante, poeta! O nosso cânone ocidental, configurado e consubstanciado na Divina Comédia, foi por ti, Gerardo, cultuado, reverenciado e seguido com talento e grandeza.
Oito de janeiro é o dia aniversário do Paean das Ipueras. De parabéns o poeta e, principalmente, esta caudalosa vertente da poesia brasileira por ele gestada no País dos Mourões, de Mel Redondo e também dos tapuias do Rio do Caminho da Onça.