Centenário da Grande União da Romênia






Em Roma, as pessoas curiosas sobre outros povos e culturas, como historiadores, poetas e especialmente os generais, tribunos e, mais nomeadamente ainda, os governantes, senadores e sucessivos imperadores, desde César e chegando a Trajano, todos tinham notícia da Dácia, terra de guerreiros audazes e intimoratos. Terra mítica, mundo de altas montanhas e rios impetuosos.
Era corrente em Roma a notícia da bravura dos dácios, habitantes da região pôntico-cárpato-danubiana.
Roma já mantinha com a Dácia relações de trocas de mercadorias e venda de armas desde que se criaram as províncias das duas Mésias e da Panônia. Essas relações precederam a conquista da Dácia pelos romanos em 107 d.C., sob o governo de Trajano. Isso significa dizer que o processo de romanização dos dácios começou antes de terem as legiões, levas imensas de colonos e o aporte significativo de administradores romanos se instalado na nova província imperial.
O processo etnogenético verificado na Dácia foi tão intenso que, após cinco gerações, a população da província era tão ou mais romanizada do que a da Gália ou da Hispânia. Isso deveu-se à chegada de colonos romanizados ex toto orbe romano, ao assentamento das várias legiões na nova província e aos consequentes casamentos mistos, de onde surgiram os chamados daco-romanos ou proto-romenos.
Durante toda a idade Média a Dácia sofreu invasões dos ditos povos bárbaros. Aliás, este acontecimento deu-se em todas as províncias romanas, fenômeno responsável pela fragmentação do latim falado nas vastas regiões imperiais. Essas invasões, de povos germânicos em especial no oeste da Europa e de povos eslavos no leste do continente, vieram a conformar os futuros povos e idiomas neolatinos ou românicos, tais como portugueses, espanhóis, franceses, italianos e romenos, com o posterior acréscimo da América Latina e regiões de outros continentes, e partir do século XVI.
A Romênia moderna é fruto da união das províncias da Valáquia e da Moldávia (os principados romenos) e, posteriormente, da Transilvânia. Foi em 1918 que se concretizou o sonho romeno da Grande União: em 1º de dezembro daquele ano as três regiões históricas romenas se uniram para a formação da Grande Romênia.
A Romênia é o país latino mais zeloso de sua descendência étnica, linguística e cultural. Não por acaso se diz que a Romênia é uma ilha latina num mar de eslavos e húngaros.  Os resultados auferidos pelo fim da Primeira Guerra Mundial terminaram por dar um fim aos impérios que a cercavam e a conformar de modo mais justo as fronteiras dos países nela envolvidos.
Falar deste formoso país, no ano do centenário da Grande União, é recordar os valores culturais de um povo que ao longo dos séculos deu cabais demonstrações de denodada consciência de sua nacionalidade, forjada ao desenrolar de muitas adversidades, porém mais ainda na convicção de pertencimento à Latinidade, esse legado civilizacional perene, do qual nós, seus herdeiros orgulhosos, fazemos um universo em expansão, no dizer do grande ensaísta e historiador Mircea Eliade.
Falar deste formoso país no centenário da Grande União é a oportunidade de saudarmos o genial Mihai Eminescu, poeta estelar, luzeiro da literatura romena, um esteta do Romantismo que alargou os limites desse movimento literário; é homenagearmos George Enescu, compositor cujo brilho ainda hoje inspira novos talentos; é reverenciarmos a fina ironia de Engen Ionescu; é acenarmos para a poesia filosófica do imortal Lucian Blaga; é compartilharmos da mordaz poesia de Marin Sorescu; é lembrarmos outros tantos nomes do panteão romeno, que dignificam as letras e as artes de um país cuja história é um verdadeiro poema de amor e de lutas, de abnegada índole e bravura pertinaz.
Desejo, ao findar estas breves palavras de louvor à Romênia, no centenário da Grande União, aqui expressar a minha admiração inabalável por este povo que, embora geograficamente distante da terra brasilis, comunga conosco da beleza de dois idiomas filhos da língua de mármore, veículos eficazes dos mais altos valores culturais e humanísticos.
Salut, România! La multi ani!

Publicado no Diário do Nordeste em 25 de novembro de 2018