CRUZ DE ESPIGAS
Daniel Varujan – tradução de Luciano Maia







Ofereço-te, Mãe, as primícias da minha colheita.
Consagra-as sobre o teu altar onde, desde séculos,
a cera alourada das nossas colmeias
difundem luz e lágrimas.
Tu, santa protetora da terra dos meus pais,
aos quais concedeste a imortalidade do paraíso;
o botão tornaste flor, a esperança uma aurora
que sorri à minha cabana.
Tu, esta cruz de espigas, entrançada com as minhas mãos,
aceita, Mãe. Em meio do meu trigo
elas pendiam como virgens de cabelos ruivos
transbordantes de sol e maduras.
Sob a minha foice, com a geada ainda sobre a cabeça,
caem como um raio ceifado da lua.
Nenhuma calhandra bicou
as suas fileiras intactas.
Eu as entrancei, cabeleira sobre cabeleira,
na cruz do teu Filho ferido de morte
cujo sangue, fogo santo de cada Páscoa
bebem os nossos sulcos.
Entrancei-as às minhas esperanças, aos meus desejos:
a seiva dos campos, o fogo do sol.
O relâmpago das relhas do arado e o ímpeto do meu braço viril,
a prece dos meus netos.
Mãe, bendiz esta cruz de espigas e doa aos nossos campos
um verão de ouro e uma primavera de pérolas;
os celeiros estarão mais cheios, mais luz
darão as velas ao teu altar.
Faz, te peço, que – como nos dias antigos –
quando de campo em campo virás a passear,
os espinhos não toquem os teus pés, mas apenas as papoulas
frementes como o nosso coração.