ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO




Quando em 1919, em seu livro Tarde (publicação póstuma), o maior poeta cívico do Brasil brindou a nossa língua com o precioso soneto “Língua Portuguesa”, outrora lido, copiado e recitado nas escolas do país, constante das antologias paradidáticas, numa época em que as lições guardavam um vínculo estreito com a crença em nosso futuro, a Linguística Românica já dava seus largos passos para um conhecimento mais aprofundado da matéria, entre os estudiosos.
Olavo Bilac (1865-1918), poeta culto, não detinha, entretanto, conhecimentos de Linguística Românica suficientes para saber que a língua romena, a preciosa relíquia da latinidade do Império Romano do oriente europeu era a verdadeira última flor do Lácio.
A Dácia (mutatis mutandis, o território da atual Romênia) foi incorporada ao Império Romano no ano 106 da nossa era, portanto a mais de 130 anos após a conquista, em 29 A.C. da Lusitânia (mutatis mutandis, o atual território de Portugal).
Friedrich Diez (1794-1876), tido como o criador da Linguística Românica, Walther von Wartburg (1888-1971), Iorgu Iordan (1888-1986, Carlo Tagliavini (1903-1982), Heinrich Lausberg (1912-1992) e outros luminares dos estudos neolatinos, elaboraram a cronologia do “nascimento” das línguas românicas a partir dos primeiros documentos conhecidos, escritos em cada uma dessas línguas.
Até hoje, tem-se a língua francesa (Juramento de Estrasburgo, 842) como a mais antiga, sendo a nossa do final do século XII (um auto de partilha datado de 1192) e a romena registrada em 1521, a célebre carta de Neacsu de Câmpulung, sobre uma incursão dos turcos no Danúbio.
Desejo aqui prestar uma tripla homenagem: à língua de Camões, Bocage, Pessoa, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, nomes vinculados a todo o merecido prestígio deste “rude e doloroso idioma”; à língua de Mihai Eminescu, Emil Cioran, Mircea Eliade, Marin Sorescu, expoentes da sonora, fácil e difícil língua dos Cárpatos e do Danúbio e ao poeta Olavo Bilac, também ele um primoroso artífice da língua, amante do “viço agreste e do aroma de virgens selvas e de oceano largo” do idioma predestinado a ser falado como língua materna em todos os continentes do nosso planeta.

A última flor do Lácio, em escala cronológica, é a língua romena, mas a nossa língua portuguesa, com o tributo que lhe prestou o poeta, vem juntar-se a esta pérola do latim danubiano, por uma licença de que só os poetas podem se valer, tornando-se ainda mais próximas as duas línguas laterais da latinidade (o português a oeste da Europa e o romeno a leste). As duas línguas românicas em que se pode dizer: eu fui professor de gramatica poética latina, sem a necessidade de se mudar uma única palavra. 

Publicado no Diário do Nordeste, em 11 de agosto de 2019.