UM POEMA-TESTEMUNHO




  
A Dácia, com os seus dons naturais de beleza e os seus valores culturais, a sua harmoniosa língua românica, tem sido, através da história, objeto de estudos e apreciações as mais variadas. É o caso do livro-poema Zlatna, publicado em 1624 em Estrasburgo, em que o poeta Martin Opitz, alemão nascido na Silésia em 1597 celebra, de forma superlativa, a região de Zlatna (que ele conheceu e onde viveu por um bom período de sua vida), da histórica província da Transilvânia, seu povo, seu passado esplendoroso e as suas belezas incontáveis. A primeira tradução ao romeno desse livro-poema deu-se em 1888, pelo então juvenil poeta George Cosbuc. Outra versão, a partir da primeira, saiu em 1981, por Mihai Gavril. Tenho dessa obra em mãos duas publicações em romeno: uma da Editora Uranus, de 1993 e outra da Editora Eikon, de 2016.
Província romana conquistada por Trajano em 106 d.C, a Dácia já recebia a influência cultural de Roma desde antes, através da vizinha Mésia (Superior e Inferior), esta incorporada ao império romano desde 29  a.C. O rio Danúbio, entre as duas províncias, era uma fronteira apenas simbólica, tendo sido considerado o axis dacorum (eixo do dácios), o povo romanizado da Mésia e da Dácia.
O poema de Martin Opitz é um hino de louvor à civilização latina, que na Dácia (a futura Romênia) experimentou uma expansão formidável, dando origem a um dos povos mais fiéis às tradições latinas. O poema inaugura na literatura alemã um estilo inovador, tendo sido considerado um dos seus mais altos momentos poéticos do Século XVII. Opitz poetiza, num estilo muitíssimo bem elaborado, as virtudes dos romenos de Zlatna, na Transilvânia. Não esqueçamos que naquele então a Transilvânia estava sob jugo estrangeiro, com húngaros e alemães compondo a elite dominadora. Sem embargo, o poeta alemão enaltece o passado glorioso dos daco-romanos (futuros romenos), com relevo para a sua preciosa língua continuadora do latim (“sobre os vossos ancestrais, estas pedras nos falam”), as suas danças, o porte das moças aldeãs que lembra o das romanas de datas longínquas, os licores, os vinhos  e todo o cenário idílico em que os rios de montanha banham os pátios das casas dos camponeses. O poeta confere uma importância distinguida às inscrições latinas nas pedras votivas.
Em 1918, todas as províncias romenas uniram-se para a formação da Grande Romênia. O poema de Martin Opitz pode hoje ser visto como um “certificado poético do espírito latino dos romenos”, uma certidão em que se dá fé da fidelidade, ao longo dos séculos, à sua formação civilizacional latina.
Um poema-testemunho, escrito por um alemão em pleno século XVII, vem confirmar a importância da nossa herança latina, desde tempos imemoriais. Martin Opitz, um verdadeiro humanista, cultor dos ideais renascentistas, contribuiu, de forma insofismável, para a valorização do acervo cultural da Latinidade, a partir do seu altíssimo louvor à Dácia (futura Romênia), nossa irmã do leste europeu.