Poema intemporal do Jaguaribe





      A Francisco Carvalho (in memoriam)

O rio Jaguaribe traz canções
ainda não cantadas pelo tempo
(estórias ancestrais), traz emoções
tangidas em segredo pelo vento.
O rio seco que hoje se supõe
tão sempre o mesmo rio tão sedento
não revela as colheitas temporãs
em ri(s)os de água antiga em movimento
nem as maduras roças de amanhã
(textura verde contra o pó cinzento).
O rio que abrigou o sangue outrora
dos ancestrais guerreiros (Pindorama)
não é o Jaguaribe que hoje chora
 um tão minguado pranto que derrama
a custo a pouca água de onde aflora
um grito sertão-mar aceso em chama.

                                                 [1981]