Memória das Águas

...Os percursos dos rios, sabemos, foram territórios visitados pelos ancestrais, em busca de repouso para suas longas, fatigadas e perguntadoras viagens. Às margens dos rios vivem os que buscam no rio a completude de um sonho ou simplesmente a sobrevivência, de um modo ou de outro. As estrelas piscando para as cintilações fluviais, são visitadoras longínquas desse mundo de bruxedos. A lua que grimpa as nascentes do Tejo inspira os poetas de lá. A que beija o azul do Volga dedilha balalaicas aos cossacos. O sol que lambe as vazantes dos rios sertanejos insulta os ribeirinhos do Nordeste brasileiro. O luar do Apodi clareia os sonhos dos nascidos no país do Jaguaribe.

Luciano Maia
Extraído do prefácio da 8ª edição de Jaguaribe Memória das Águas, setembro de 2007.



Nosso Rio Tutelar...

O Jaguaribe, em seu caminho desde a Serra da Joaninha, até entregar-se ao abismo de águas do Oceano Atlântico, experimenta e nos oferece toda uma variedade de aspectos geológicos e, por que não referir, locais e culturais, amalgamados por uma realidade mais ampla, a pertinência a um universo cujas ressonâncias mais fundas repercutem em nossa alma cearense de forma pertinaz e reiterada.

A minha infância, se bem que, em termos cronológicos, por duas vezes interrompida pelas viagens ao interior paulista, mais precisamente ao Vale da Mogiana, é uma história e uma geografia intactas, para mim, e indissoluvelmente ligadas a todas as percepções futuras, porventura dadas a experimentar em minha trajetória, a partir das primeiras visões da minha terra, quero dizer, do Vale do Jaguaribe, onde está ubicada a Ilha de Parapuã, a Pátria dos Cataventos. Mesmo considerando que os cataventos, hoje, são motores elétricos, não há como apagá-los da minha memória afetiva, onde e quando movem as suas rodas e giram os seus leques ao sopro do vento geral, o Aracati de todos nós.

Devo referir, aqui, que me foi dado conhecer outras latitudes, outras línguas, outros povos, outras culturas. E ao mesmo tempo afirmar que, independentemente do interesse que nutro pelos estudos destes outros universos, a minha convicção de que pertenço a este País, que costumo chamar de País do Jaguaribe, é inarredável. Assim,  esteja eu longe ou perto, ouvindo a nossa língua ou falando outro idioma, nada do que me nutre essencialmente desaparece, porque o seu vínculo comigo é essencial, tão entranhável quanto íntegro.

Disse alguém, em bom momento, que cada livro, por pequeno que seja, tem o seu destino. Lembro esta sentença e refiro-me ao livro Jaguaribe - memória das águas, este ano alcançando a sua oitava edição brasileira, nos seus 25 anos da editio princeps, que é de 1982, e com edições argentina, norte-americana e romena, além de alguns de seus trechos traduzidos em francês, espanhol, italiano e corso. E justifico esta referência: todos os meus outros livros, inclusive este que ora se lança, guardam, uns mais outros menos, uma relação com o livro Jaguaribe- memória das águas. Não posso dizer-lhes se isto é bom ou ruim, mas posso confessar-lhes que isto me gratifica, quando constato que a força do Jaguaribe disseminou-se antes e depois do seu surgimento, provando o quanto a minha afeição por este rio é longa e vasta.

E por mor desta afeição, sinto-me na obrigação de conclamar, não somente às autoridades cearenses, principalmente àquelas ligadas ao território por onde caminha este rio, mas a todos os cidadãos do Ceará e do Brasil: não deixemos que este rio desapareça sob lixo.e sujeira! Algo tem de ser feito – e agora! – para salvarmos este rio. Que depois não nos arrependamos e nos desesperemos, diante da constatação dos nossos filhos de que fomos covardes diante da agressão malévola e reiterada ao velho Jaguaribe de outras datas, quando a lua tabajara mirava a lua paiacu a subir pelo Apodi e espelhar-se nas águas novas que desciam dos Inhamuns, do Cariri e dos sertões centrais do Ceará. Senhoras, Senhores, caras amigas, caros amigos: formemos, a partir de hoje, um batalhão contra o sepultamento do Jaguaribe: ele está vivo, a nos pedir socorro!

Luciano Maia