Mihai Eminescu

Mihai Eminescu
1850-1889

Lumină de Lună / Luar
Poemas de Mihai Eminescu por Luciano Maia


    O movimento romântico, enquanto estilo-de-época, está, segundo os mais eminentes ensaístas e historiadores da arte e da literatura universal, na contramão da história, o que é perfeitamente compreensível. Como visão-de-mundo, entretanto, queremos crer que o Romantismo é imorredouro, em virtude da força formidável das evocações líricas de vida e demorte que os seus geniais criadores engendraram em nossas percepções. O Romantismo deve ter sido (e por certo ainda será) a estética mais perfeitamente adequada à celebração dos ideais amorosos ou, em outras palavras, do amor ideal. O amor é romântico, dirá quem aprendeu a sorver as infinitas sugestões que o Romantismo nos legou, através de pintores, escultores, arquitetos, prosadores e, sobretudo, poetas, sugestões essas que os tempos posteriores parecem não ser capazes de ultrapassar definitivamente.

    Mihai Eminescu (1850-1889) é o poeta nacional da Romênia. Escreveu sua esplêndida poesia na segunda metade do Século XIX (entre 1866 e 1886). O seu gênio poético produziu verdadeiras pérolas do Romantismo europeu tardio, sendo fácil detectarmos em seus versos influências da filosofia oriental e alemã. O poeta, na verdade, estudou budismo e leu e traduziu Schopenhauer e alguns poetas alemães ligados à corrente romântico-filosófica, quando estudou em Viena, nos anos de sua juventude.

    A sua obra completa, imensa, encerra uma atividade de escritor profícuo, onde se encontram, além da poesia, o teatro, a prosa, a ficção e uma infinidade de escritos políticos e filosóficos e ainda um jornalismo de alta envergadura.

    A poesia de de Mihai Eminescu está vazada daquele sentimento de mundo encontrado em praticamente todos o poetas românticos. Mas há, sobretudo, em sua escritura, uma pendulação entre colinas (visão bucólico-onírica de reintegração à natureza) e ondas (o mar como o grande sorvedouro, visão oriunda de uma acepção mítica), entre a vida efêmera e a eternidade, entre a finitude da condição humana e as consteladas distâncias cósmicas.

    É tema recorrente em Eminescu, como já vimos, a natureza. Desta, são elementos constantes: o bosque (lugar secreto dos amantes) a fonte (sob cujo som encontram-se os apaixonados) a tília (tida na Romênia como espécie de de árvore dos namorados), a lua (guardiã distante dos enamorados), as estrelas ( vigilantes astros sobre a finitude do amor) e mais o vento, a cantarolar sobre as águas das fontes, sobre o mar, sobre as colinas, sobre as frondes do bosque ... em tudo isso sendo sempre presente o anseio de reencontro (no amor ou na morte, dá no mesmo).

    O leitor brasileiro poderá observar, com a leitura dos poemas de Eminescu, o quanto o poeta romeno assemelha-se àquele a quem muitos consideram nosso poeta nacional, - Castro Alves (1847-1871). Essa comparação comporta algumas considerações relativistas, é certo. Contudo, se levarmos em conta a distância geográfica em que cumpriram os dois românticos as suas meteóricas existências terrenas, distância àquela época maior ainda, por força da escassíssima ou quase inexistente comunicação entre Romênia e Brasil, obrigamo-nos a reconhecer muitas semelhanças, algumas delas surpreendentemente profundas, entre ambos.

    A vocação do cósmico é, sem dúvida, uma recorrência que se verifica tanto em Eminescu quanto em Castro Alves. Uma outra vertente de apreciação das similitudes entre os dois é a preocupação com o social. Castro Alves, com seus poemas libertários, em que conclama à superação da escravidão negra, nos lembra Eminescu em suas famosas Epistolas, nas quais denuncia a opressão e celebra os valores nacionais romenos de coragem e patriotismo.

A poética de dor, a saudade romena

    A palavra dor (saudade e também dor, em romeno) é muito antiga nessa língua. Dolor (dor), do latim clássico, tornado dolus em latim popular, encontra-se no italiano duolo, no sardo dolu, no friulano dul, no provençal e no catalão dol, no português dó e no espanhol duelo. O fato de que em todos os dialetos romenos dor aparece sempre com o mesmo significado, segundo nos ensina Ovidiu Densusianu, "nos mostra que desde muito tempo, quando a língua romena não estava ainda fragmentada nos dialetos de hoje, o latim dolus chegou a exprimir algo bem próprio do espírito romeno, que nos confere aquele lirismo inquietante, de uma melancolia que penetra toda a poesia popular romena.”

    Eminescu bebeu profusamente das fontes da poesia popular, conferindo à sua lírica um sentimento de melancolia que vai muito além daquela percepção primária que se extrai do significado dessa palavra. A chamada poesia de dor tem, na literatura romena, um significado
entranhável, refletor de toda uma carga ancestral de um sentimento que se pode traduzir como o específico romeno.

    Vejamos este poema de Eminescu, em que a saudade (dor, em romeno) chega-nos das cósmicas distâncias, sendo o amor, ou melhor, a sua luz, retomada de lonjuras desmedidas.


          LA STEAUA                                                                 À ESTRELA

La Steaua care-a răsărit                                             Até à estrela que reluz
E-o cale-atât de lungă,                                                Há uma distância de trespasse.
Că mii de ani i-au trebuit                                            Correu milênios sua luz
Luminii as ne-ajungă.                                                  Para que enfim nos alcançasse

Poate de mult s-a stins în drum                                 Talvez há muito já se fora
În depărtări albastre,                                                  No longe azul extinto astro
Iar reza ei abia acum                                                   Porém seus raios só agora
Luci verderii noastre.                                                  Ao nosso olhar mostram seu rastro.

Icoana stelei ce a murit                                               A aura da estrela que morreu
Încet pe cer se suie:                                                     No alto do céu se faz dar fé.
Era pe când nu s-a zărit,                                             Era, e ninguém a percebeu,
Azi o vedem, si nu e.                                                    Hoje que a vemos já não é.

Tot astfel când al nostru dor                                      Também assim a nossa dor
Pieri in noapte-adâncă,                                               Na abissal noite se finda.
Lumina stinsului amor                                                Porém a luz do extinto amor
Ne urmăreşte încă                                                       Os nossos passos segue ainda.


    O livro se chama Lumină de Lună/Luar. Em seus manuscritos Eminescu deixou registrada a sua vontade de que assim se intitulassem os seus versos. A relação do poeta com a lua é constante em sua criação. O eminente critico Vasile Munteanu escreveu, certa vez, que os poemas de Eminescu são como um "vasto concerto ao luar."

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    Traduzir poesia é um ato de recriação. Estudiosos da obra de Eminescu, os chamados eminescólogos, críticos, tradutores, enfim quase um consenso, consideram ser muito difícil a tarefa de transpor os versos do grande poeta romeno para qualquer outro idioma. Os obstáculos apresentam-se por várias vertentes: a lingüística, a estilística, a pessoal, a de forma e conteúdo; mas talvez a maior dificuldade seja a linguagem específica que Eminescu utiliza em seus poemas. Alguns deles dir-se-iam intraduzíveis.

    Contudo, quero confessar que a minha admiração pela poesia eminesciana é tamanha, que todos esses obstáculos creio tê-los podido superar, respeitando o que se pode chamar de idéia nuclear ou intenção do autor, sempre que possível, sem prejuízo da métrica e, em quase todos os casos, também da rima, tão essenciais ao Romantismo, estética sob cuja égide criou Eminescu os seus poemas.

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    Algumas revisões e modificações foram introduzidas em vários textos das traduções já publicadas anteriormente (entre 1989 e 1998), especialmente no poema "Vésper", totalmente reestruturado, obedecendo agora inteiramente à sua feição métrica original.

Luciano Maia