Outros Poemas

TRÊS POEMAS DE SALVADOR ESPRIU
(traduzidos do catalão por Luciano Maia)

OFRENAT A CÈRBER

He donat la meva vida a les paraules 
i m’he fet lenta pastura d’aquesta fam de gos.
Ah, guardià, caritat per als ossos,
car ja t’arribo sense gens de carn!
Vaig enfonsar les mans en l’or misteriós
del meu vell català i te les mostro
avui, sense cap guany, blanques de cendra
del meu foc d’encenalls, i se m’allunya
per la buidor del cape el so del vidre frágil.
Ara ballo amb dolor, perquè riguin les goles,
per obtenir l’aplaudiment dels mil lladrucs,
i em coronen amb un barret de cascavells. 


OFERECIDO A CÉRBERO*

Doei a minha vida às palavras
 e me fiz lenta pastagem desta fome canina.
Ah, guardião, caridade para os ossos,
pois já chego sem nada de carne!
Afundei as mãos no ouro misterioso
do meu velho catalão e te mostro-as
hoje, sem nenhum ganho, brancas de cinza
do meu fogo de palha, e se me distancia
pelo vazio da cabeça o som do vidro frágil.
Agora danço com dor, para que riam às gargalhadas
e possa obter o aplauso dos mil ladridos
e me coroem com um barrete de guizos.

*Na mitologia grega, e depois na latina, Cérbero é um cão de três cabeças, guardião das portas do Hades (inferno) 


ELS MÚSICS CECS

Vells músics que retornen,
Cansats, sota lent tedi
De pluja, per aquesta
Glaçada llum de l’alba.

Xisclen trens rera límits
Imprecisos de boira.
Bastons de cecs desvetlen
Hostil lladrar de gossos.

Qui sap a quina festa
Han guanyat um difícil
Tros de pa. Vénen ara,
Vacil.lants, per la via
Plena de fang, per l’aigua,
Cap al repòs de nínxols.

Un fagot, un patètic
Violí, en la dansa
Suburbana dels tristos
Morts amics. Més profundes,
Amb excessiu missatge
De premi o de condemna,
Trompetes del Judici. 


OS MÚSICOS CEGOS

Velhos músicos que retornam,
cansados, sob lento tédio
de chuva, por esta
gelada luz da manhã.

Chiam trens atrás de limites
imprecisos de névoa.
Bastões de cegos despertam
hostil ladrar de cães.

Quem sabe em que festa
ganharam um difícil
pedaço de pão. Vêm agora
vacilantes, pela rua
cheia de lodo, pela água,
até o repouso de tumbas.


Um fagote, um patético
violino, na dança
suburbana dos tristes
mortos amigos. Mais profundas,
com excessiva mensagem
de prêmio ou de condenação,
trombetas do Juízo Final.


XXIX

Já salvat en la neu
alta de les muntanyes,
al cim més allunyat
he dit paraules blanques.

Amb llavis plens de sang
dic glaçades paraules,
la clara solitud
de la meva ànima.

Em fan llargs comiats
branques molt enlairades,
damunt l’últim avet,
primer domini d’ales.

Em sento despullat
de record i esperança.
Només cançons de neu
podran acompanyar-me.


XXIX 

Já salvo na neve
Alta das montanhas,
Ao cimo mais distante
Eu disse palavras brancas.

Com lábios cheios de sangue
Digo geladas palavras,
A clara solidão
Da minha alma.

Acenam-me longas despedidas
Ramas muito elevadas.
Acima do último abeto,
Primeiro domínio de asas.

Sinto-me despojado
De recordação e esperança.
Apenas canções de neve
poderão acompanhar-me. 


SALVADOR ESPRIU (1913-1985), poeta catalão de grande vigor lírico e social, é considerado, ao lado de Federico García Lorca, Antonio Machado, Rafael Alberti, Miguel Hernández e outros, uma das mais altas vozes da poesia espanhola do século XX. Escreveu principalmente em sua língua materna, o catalão.  Estes três poemas foram extraídos do livro Les Hores (1952) “Oferecido a Cérbero”; do livro Mrs. Death(1952) “Os músicos cegos” e do livro Final del laberint” (1955), o Poema XXIX, volumes que compõem o chamado “ciclo lírico” de Salvador Espriu

LUCIANO MAIA (1949-    ), poeta, linguista, ensaísta e tradutor, é autor de mais de 20 livros de poesia e de estudos na área da Linguística Românica. Mestre em Literatura Brasileira pela UFC, é professor do Curso de Direito da UNIFOR. Cônsul Honorário da Romênia em Fortaleza. Comendador da Ordem Nacional da Romênia. Ocupa a cadeira 23 da Academia Cearense de Letras. Membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste-ALANE e da Academia Limoeirense de Letras. Seu livro Jaguaribe-memória das águas, em sua nona edição brasileira, é agora também um álbum de canções compostas por Rodger Rogério.