Poeta

Luciano Maia nasceu em Limoeiro do Norte, Ceará, no dia 7 de janeiro de 1949. Bacharel em Direito e Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Ceará - UFC, leciona a disciplina de Monografia Jurídica na Universidade de Fortaleza - UNIFOR.

Titular da cadeira 23 da Academia Cearense de Letras, tem mais de 20 livros publicados, além de vários estudos na área da Linguística Românica. É membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste - ALANE, da Academia Limoeirense de Letras, da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo e da Associação Brasileira de Bibliófilos. 

Traduziu vários poetas da Romênia, país que representa em Fortaleza na qualidade de Cônsul Honorário, e do qual é também Comendador da Ordem Nacional.







O POETA E O RIO INTEMPORAL

Lauro de Oliveira Lima


        A imensa produção poética universal tira sua inspiração dos enredos das epopéias e das escaramuças sentimentais das pequenas novelas corriqueiras. Luciano Maia reflete um drama cósmico, com bichos e gentes lutando com o sol inclemente e com as rochas que afloram no deserto comburido. É como se da pedra um escultor retirasse a poesia com o seu cinzel. Vento, luz, areia, pedras, deserto inclemente, ribanceiras são os personagens cósmicos do seu poema – como se quisesse provar a força de sua musculatura arrancando do deserto uma floração de vida. Um desafio ao demiurgo que retirou a criação do caos.

       Luciano faz o rio seco transbordar de sentimentos, entregando aos seus leitores um manancial de poesia que corre na memória das águas, tornando prisioneiro do verso o universo fugidio. Ilumina a paisagem com as luzes do Olimpo, “acendendo as madrugadas com os fogos dos braseiros”, como se fosse um Deus que comanda os elementos. No vasto panorama em que o rio imprime as suas pegadas na areia, marca encontro com o sol, este irmão do rio que repete a cena bíblica do primeiro fratricídio.

       Luciano não cultiva a popularidade, mostrando-se um poeta erudito que maneja as palavras – sua matéria-prima – como um pintor combina as tintas para traçar a paisagem. Salta de metro com a elegância com que os cabritos escalam os serrotes, indiferente ao formalismo, ora evocando o ritmo medieval das epopeias, ora cabriolando no verso popular como cantador de viola, imitando o rio que serpeia em terrenos diferentes até desaguar no estuário tranquilo em que se perde no mar. É que não busca o efêmero do pitoresco, preferindo a marca eterna que supera as idades.

       A força do tema é tão ciclópica, que o leitor esquece o formalismo dos versos, impregnado pelo sopro forte da poesia, que transfigura a paisagem. A todo momento, o leitor tem que parar para contemplar, na mente, as esculturas -  “o boi defunto / que de sede e de fome virou osso / junto ao rio sem água que anda junto”  – que Luciano vai semeando ao longo do leito do rio: o sonho da colheita, as  cidades deitadas, como que espiando o tempo na janela, a canoa atravessando as farturas da gamboa, cardumes de peixes alados, gado escramuçando...mil paisagens que os meninos guardaram na mente e não sabiam ressuscitar para deleite do adulto. Eis aí a função suprema do poeta de acordar os mundos que dormem na alma dos leitores. Não sou expert na matéria, mas não é preciso muita acuidade literária para perceber-se que estamos frente a um Poeta Maior. Luciano pode ser o sintoma de uma longínqua ressurreição.  

       Luciano fez-se poeta da nacionalidade. Um poeta brasileiro. Ele superou o regionalismo com seu poder de Universalidade. O Rio Jaguaribe já não é só limoeirense: é um personagem da cultura universal, com a transfiguração feita por este Poeta.